Olhando para a realidade presente torna-se difícil, para ainda mais com a cacofonia incessante, prioritizar um plano adequado a questões emergentes com demasiada importância para poderem continuar a ser postas de lado.
Em http://www.publico.pt/Sociedade/portugal-perde-27-mil-milhoes-por-ano-por-causa-de-jovens-inactivos-1568436 , fica patente que Portugal tem uma proporção de jovens que não emigram, não têm trabalho ou qualquer tipo de formação. Estas massas são altamente voláteis, são jovens e têm expectativas apesar de baixas, ameaçam serem goradas no futuro.
O actual cenário macroeconómico está apenas focado no défice, enquanto que o resto do país espera em vão que a dose de oléo de fígado de bacalhau da austeridade faça algum efeito e que possamos retornar á mesma velha vida do défice e da dívida.
Estes jovens terão o ônus de trabalhar durante quase toda a vida, ter rendimentos muito inferiores aos de hoje praticados, serem sufocados em impostos e contribuições para um estado social moribundo. Mais tarde ou mais cedo irão querer uma família e uma casa e não a poderão ter. Mais tarde ou mais cedo quererão benefícios sociais e não haver dinheiro para os providenciar. Cada vez mais o ócio subsidiado, a criminalidade organizada e a revolta violenta serão as únicas alternativas para o escape emocional de uma geração de frustados e injustiçados. Esta será uma grande ameaça ao estado de direito, á democracia, um grande ninho para a demagogia, para o radicalismo e para o sectarismo e desagregação social.
Os custos sociais desta franja da população já tem custos enormes e no futuro pagaremos uma factura ainda maior: a paz social.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Negócios á la carte
Publicada por
Paulo Coelho
No seguinte link: http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/relvas-e-ricciardi-escutados-a-conversar-sobre-privatizacao-da-edp-1567305, temos mais uma constatação de sobre o nosso sistema politico e sobre as inexpurgáveis e opacas relações com o mundo económico, ora com quezílias sinistras ou com acordos silenciosos, estas lapas estão tão incrustadas que tirá-las era criar um enorme buraco na nossa normalidade. Aparentemente Relvas é mesmo o tipo diligente por quem todos nós o tomamos, ao ser proactivo nos contactos para a operação de privatização da EDP, fica no entanto a questão: que teria Relvas a dizer, sobre este processo, a uma figura chave de uma entidade financeira que concorria ao processo, que o público não pudesse saber?
Talvez por isso cada vez olhemos mais para estes exemplos com a indulgência que já nos habituamos. Os politicos agradecem e nós também afinal fazemos piadas e pouco mais.
Com este docinho e mais alguns como: http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/relvas-e-passos-agiram-juntos-para-angariar-contratos-os-documentos-1567295, acabamos por olhar para os politicos como um cão que lambe as suas partes intimas, primeiro achamos nojento e repreendemos o animal mas depois ficamos cansados de tal exercício e até podemos começar a achar piada e dizer algo do genéro: "Eles não o podem evitar, se o poderem fazer então eles irão o fazer".
A fibra de Passos e de Relvas começa a ficar bem conhecida.
Aparentemente pode se pedir tudo a um governo menos para ser integro, parece ser essa a impressão fica de muitas manifestações desde há muitos anos. As pessoas protestam umas vezes com razão e outras sem, na minha humilde opinião, quanto aos seus direitos, esquecendo muitas vezes que são estas atitudes de compadrio de onde o Estado sai, de modo atroz, prejudicado que os impostos se esfumam e os nossos direito e futuro são hipotecados.
Que tal uma manifestação contra este governo e as figuras que lá deambulam? Aliás contra este governo e com todas as figuras que no poder nas últimas décadas usurparam dinheiros públicos. Uma manifestação que se possa apoiar numa premissa fundamental, chamar a sociedade á sua responsabilidade colectiva para exigir algo que não apenas direitos mas integridade naqueles que elege.
Talvez por isso cada vez olhemos mais para estes exemplos com a indulgência que já nos habituamos. Os politicos agradecem e nós também afinal fazemos piadas e pouco mais.
Com este docinho e mais alguns como: http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/relvas-e-passos-agiram-juntos-para-angariar-contratos-os-documentos-1567295, acabamos por olhar para os politicos como um cão que lambe as suas partes intimas, primeiro achamos nojento e repreendemos o animal mas depois ficamos cansados de tal exercício e até podemos começar a achar piada e dizer algo do genéro: "Eles não o podem evitar, se o poderem fazer então eles irão o fazer".
A fibra de Passos e de Relvas começa a ficar bem conhecida.
Aparentemente pode se pedir tudo a um governo menos para ser integro, parece ser essa a impressão fica de muitas manifestações desde há muitos anos. As pessoas protestam umas vezes com razão e outras sem, na minha humilde opinião, quanto aos seus direitos, esquecendo muitas vezes que são estas atitudes de compadrio de onde o Estado sai, de modo atroz, prejudicado que os impostos se esfumam e os nossos direito e futuro são hipotecados.
Que tal uma manifestação contra este governo e as figuras que lá deambulam? Aliás contra este governo e com todas as figuras que no poder nas últimas décadas usurparam dinheiros públicos. Uma manifestação que se possa apoiar numa premissa fundamental, chamar a sociedade á sua responsabilidade colectiva para exigir algo que não apenas direitos mas integridade naqueles que elege.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Nuno Grande
Publicada por
Pedro von Hafe Leite
Ontem morreu o Dr. Nuno Grande, amanhã será o seu funeral.

Se calhar muitos jovens alunos do ICBAS só o
conhecem de uma aula de Neuroanatomia. Mas o Nuno Grande é o ICBAS, todo o
ambiente que subjaz nesta faculdade deve muito à entrega, à dedicação, à
ideologia deste Homem, que quem o conhecia bem o descreve como uma pessoa
ímpar!
Infelizmente eu sou um daqueles que só o
conhece através dessa aula e que o conhece através da atmosfera que sempre
esteve presente, principalmente nas paredes do 'velho' ICBAS. Por isso
deixo-vos com alguns testemunhos de pessoas que o conhecerem melhor que eu,
tentando, desta forma, perpetuar o trabalho e a ideologia de uma vida.
Júlio Machado Vaz:
"Mestre e Amigo.
Partiu Nuno Grande.
Lembro ralhetes carinhosos
pelos corredores do ICBAS - "você nunca me fez a vontade...". Com efeito,
amei o Ensino em abstracto e os alunos em particular, mas a Cátedra não me
atraiu. Ele teve caminho atribulado a caminho da sua, vejo-o a preparar uma
Lição - e nunca a palavra se justificou tanto... - em casa de meus Pais, sem me
aperceber do que o seu brilho
faria das notas
breves, tomadas em amena cavaqueira. E o Anfiteatro rendeu-lhe a primeira
homenagem ouvindo-o num silêncio religioso, para depois rebentar numa salva de
palmas entusiástica, quem decretou a Medicina alheia à Cultura? A política
universitária é conservadora, todos sabíamos que não ficaria à frente de outro
distinto professor, Pinto Machado, a quem devo amizade e paciência evangélica
no exame de Anatomia, até o cadáver tinha os nervos em franja..., perante o
triste espectáculo dos meus:). Portanto, no que ao mérito relativo dizia
respeito, estávamos conversados. Mas, para enorme surpresa indignada, houve
votos contra em mérito absoluto. Cheguei a casa e explodi à mesa, o meu querido
Velho sorriu com amargura e disparou - "aquele aplauso não ajudou
nada...". Ah, as delícias do voto secreto, permite abraçar o candidato que
há minutos, com mesquinhez, se maltratou! Momentos e gente houve que, a
posteriori, me fazem abastardar o título do programa dos Gatos - "Dizem
que é uma espécie de Universidade:(."
Professor Nuno - dê um
abraço ao Pai e guarde outro para si. Apertado e grato.."
José
Mariano Gago:
"Mas posso testemunhar o papel singular de Nuno Grande,
médico e universitário empenhado em apoiar com todas as suas forças o desenvolvimento
científico do País. Recordo a presença activa e constante pelo menos desde as
Jornadas Nacionais de Ciência e Tecnologia de 1987 e a coragem com que deu a
cara em muitos momentos difíceis desde então.
A persistência para a
melhoria dos cuidados de saúde, do ensino médico e da investigação, associada à
pulsão da intervenção cívica, tornaram-no uma figura singular na sua cidade e
no País, e contribuíram, pelo exemplo, para enraizar na sociedade a ideia de
que a ciência, toda a ciência, age em nome do bem comum, é indissociável da
democracia, da justiça social, da liberdade, e que sem desenvolvimento
científico não há futuro."
Bruno Maia:
"Para quem passou 6 dos
mais importantes anos da sua curta vida no velho edifício das “Biomédicas”,
Nuno Grande não é um ídolo, não é um ícone e não é mito! Nuno Grande é o nome
que ecoa nas paredes e nos recantos do edifício e das almas que por ele passaram
– quer dizer conhecimento, quer dizer dedicação, quer dizer democracia, quer
dizer diversidade do saber, quer dizer partilha e solidariedade no trabalho, na
ciência, nas instituições e na sociedade em geral.
Estive na última aula do Professor Nuno
Grande antes da sua jubilação – foi-nos falar do nervo facial e de como,
sentado no seu sofá, se auto-diagnosticou com um tumor que comprimia aquele
nervo e sozinho, sem contar à família, foi ao Hospital de Santo António para
ser operado de imediato. Era assim, um Homem que conta uma história simples,
que olha a vida com senso, procurando ao máximo a verdade nas coisas, ou
melhor, procurando a melhor das verdades pois ele sabia perfeitamente que não
há só uma. E mesmo com todo o senso do mundo e o mais racional dos discursos,
adivinhava-se facilmente que os olhos brilhavam de entusiasmo tanto quando
falava de um nervo craniano como quando falava do perigo da ameaça
nuclear."
Fica aqui também um link com um documentário que aconselho a toda a gente, mas especialmente, aos novos alunos de Biomédicas!
Pedro von Hafe Leite
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Acima das Nossas Possibilidades a Tua Tia
Publicada por
Pedro von Hafe Leite
Depois destas medidas de austeridade e um bocado como ‘resposta’ ao último
post do blogue queria contestar as constantes afirmações de que os portugueses
vivem acima das suas possibilidades.
O que é viver acimas das possibilidades? É gastar mais do que o que se tem?
É ganhar 13º e 14º mês?
Portugal é um dos países com menor taxa de natalidade, uma das razoes é as famílias
não terem viabilidade económica para ter mais que 1 filho. Portugal é um dos países
da EU com combustíveis e transportes mais caros. Portugal e um dos países da EU
com electricidade mais cara. Portugal é um dos países da EU com salários mais
baixos. Rede de transportes públicos? Só há em duas cidades, o resto é
paisagem, as pessoas têm que comprar um carro. Porque compram uma casa em vez
de alugar? Só pergunta isto quem vive noutro mundo e não conhece o panorama imobiliário
em Portugal… já para não falar do comportamento vergonhoso dos bancos e de outras
entidades de credito que quando apresentaram dificuldades, devido em grande
parte a actos corruptos, foram ajudados por todos nós, que como vivemos acima
das nossas possibilidades temos dinheiro para pagar um bpn tranquilamente. Mesmo
com o 13º e 14º mês, inexistente em maior parte dos países da Europa
desenvolvida, temos um rendimento anual médio miserável.
Acima das nossas possibilidades a tua tia.
Acimas das possibilidades está o Sr. Catroga que agora está na EDP de cu
para o ar, acima das possibilidades está o Dias Loureiro e o Cavaco que saíram incólumes
de um dos maiores escândalos de corrupção do seculo XXI, acima das
possibilidades está o Miguel Relvas.
Haja mais impostos, nós pagamos para que ninguém passe fome, nós pagamos
para que as contas entrem nos eixos, mas por favor acabem com essa conversa,
aniquilem estes seres que vêm com essas conversas de café e que dizem que
vivemos acima das nossas possibilidades. Acabem com as PPP’s, acabem com as
mentiras, acabem com as desigualdades… dizem que se cortarem os salários dos gestores
públicos e afins eles saem para o privado. Não saem, porque maior parte das
vezes não têm competência para gerir o que quer que seja, vide o António
Borges.
Penso até que vivemos abaixo das nossas possibilidades, a economia depende
destas pessoas, o consumo e a fluidez económica são essenciais para o
crescimento de um país e das suas empresas. Com esta onde toda de crise e de
cortes as pessoas não consomem e a economia estagna.
Mas nada temam, o melhor povo do mundo está cá para suportar tudo e para
que os mesmos continuem a viver acima das nossas possibilidades, não das deles
claro.
Pedro von Hafe Leite
sábado, 29 de setembro de 2012
Manifestações ou "distribuição do mal pelas aldeias"?!
Publicada por
RuiJFSilva
Hoje decorre mais uma manifestação organizada por uma central
sindical para protestar contra “esta politica de direita que está a destruir o
país”.
Pessoalmente concordo e apoio a democrática manifestação de
opiniões e a luta (pacifica) por melhores condições de vida, nomeadamente num
momento em que elas se estão a degradar rapidamente.
É por isso que acho que os 14% da população que está no
desemprego (muito mais do que os milhares que hoje estão em Lisboa, podiam
organizar uma manifestação para protestar contra o facto de uns terem tudo
(emprego para a vida, receberem 14 meses de salário apesar de só trabalharem
11, terem subsistemas de saúde e de aposentação, etc, etc, e ainda terem a lata
de virem exigir aumentos!!) e outros nada (estarem a ser sugados por impostos
crescentes, verem as empresas onde trabalham a fechar, terem o crescente risco
de não terem pensões daqui a uns anos, etc, etc.).
È que os sindicatos, e outras forças interventivas,
esquecem-se, ou nunca souberam,: i) que o estado não é uma entidade independente,
somos nós, o povo, ii) que o dinheiro que o estado dispõem vem dos impostos que
cobra a quem produz, iii) que a função pública existe para servir o resto da
população, iv) que esse resto da população trabalha para produzir valor exportável
ou para que não seja necessário importar.
Só que neste momento, porque nos últimos anos Portugal
transformou-se num pais de serviços, já muito poucos produzem mas muitos mais
vivem, directa ou indirectamente á custa do estado. Por isso, não é difícil perceber
porque é que isto se tornou insustentável!
Contudo, a culpa não é deste governo em particular, é de
todos os governos que tivemos desde o 25 de Abril (que p ex. aniquilaram o
sector produtivo), dos sindicalistas (que exigiram o que o país não podia pagar
e assumem isso agora como “direitos adquiridos”), dos patrões (que pegaram nos
fundos europeus e compraram carros e vivendas em vez de investirem nas empresas
para as tornarem mais modernas e competitivas), e do povo (que se acomodou a
tudo isto e não veio exercer o seu direito democrático de protestar antes de
isto bater no fundo só porque tinha “direitos adquiridos” pagos por empréstimos
ao exterior a taxas de juro baixas!).
Assim, eu pergunto:
Estão hoje a protestar contra quê e/ou contra quem?!
Querem a queda deste governo para ir para lá quem?!
Não querem esta politica, querem qual?!
Não querem um corte no 13º e 14º mês dos funcionários
públicos (que têm emprego, porque não podem ser despedidos), querem que suba
que impostos (o IRC das empresas quase falidas para haver mais desempregados do
sector privado; do IVA que todos pagamos, desempregados incluídos; do IRS que
todos pagamos)?!
Isto é muito simples, não há nem nunca houve dinheiro para o tipo de
vida que levamos, assim, temos que reajustar a distribuição do pouco dinheiro
existente, e para isso é inevitável que quem tem mais regalias (“direitos
adquiridos”) as perca, para que outros não passem tão mal. Como diz o povo “há
que distribuir o mal pelas aldeias”, e isso, para alem de acabar com a
corrupção, gestores públicos com salários milionários, PPP, regalias de
políticos; taxar os bens de luxo, e as grandes fortunas, também passa por
terminar com muitos “direitos adquiridos” de muitos de nós para outros de nós
possam ter o mínimo: emprego!O que é que VOCÊ vai FAZER em relação a isso?
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Ramalho Eanes
Publicada por
Pedro von Hafe Leite
A ser verdade representa a maior chapada de luva branca que vi em toda a minha vida e fica o meu respeito por este Homem:
"Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.
"Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.
O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber.
Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.
O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.
Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros.
Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados.
As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.
Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a.
Mas pedi-la, não. Nunca!»
O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.
“A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”.
Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta- acrescentando os outros.
“Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido, liderando”. O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.
Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.
Texto de Fernando Da Costa
Disseram-me que perante as dificuldades da Presidência teve de vender uma casa de férias na Costa de Caparica e ainda que chegou a mandar virar dois fatos, razão pela qual um empresário do Norte lhe ofereceu tecido para dois. Quando necessitava de um conselho convidava as pessoas para depois do jantar, aos quais era servido um chá por não haver verba para o jantar. O policia de guarda em vez de estar na rua de plantão ao fio e chuva mandou colocá-lo no átrio e arranjou uma cadeira para ele não estar de pé. Consta que também lhe ofereceram Ações da SLN-BPN, mas recusou."
Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.
O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor.
Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros.
Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados.
As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social.
Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a.
Mas pedi-la, não. Nunca!»
O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos.
“A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”.
Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta- acrescentando os outros.
“Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido, liderando”. O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.
Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos - condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.
Texto de Fernando Da Costa
Disseram-me que perante as dificuldades da Presidência teve de vender uma casa de férias na Costa de Caparica e ainda que chegou a mandar virar dois fatos, razão pela qual um empresário do Norte lhe ofereceu tecido para dois. Quando necessitava de um conselho convidava as pessoas para depois do jantar, aos quais era servido um chá por não haver verba para o jantar. O policia de guarda em vez de estar na rua de plantão ao fio e chuva mandou colocá-lo no átrio e arranjou uma cadeira para ele não estar de pé. Consta que também lhe ofereceram Ações da SLN-BPN, mas recusou."
Pedro von Hafe Leite
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Paisidente da República?!
Publicada por
RuiJFSilva
È curioso como sempre que surge uma “crise politica” toda a
gente se vira para o PR e espera que ele resolva a situação. Como se ele
tivesse uma varinha mágica que resolvesse todos os problemas originados pela
incompetente classe politica (a que ele próprio pertence) que nos vem
“governando” desde 1974!
Que é que estão á espera que o PR faça, dissolva a AR e
convoque eleições antecipadas para que outra corja de políticos oriundos dos
mesmo partidos que nos trouxeram até aqui seja eleita e faça o mesmo ou pior
que os seus colegas?
Será que acreditam mesmo que os actuais políticos do PS, CDU
e Bloco são menos corruptos, mais competentes e/ou sérios do que os do PSD e
CDS?!
De onde virá esta necessidade/tradição Lusitana de esperar
que o Pai resolva os problemas do país? Será de 800 anos de Pai monárquico, de
mais de meio século de Pai tirano ou trauma recalcado de D. Sebastião?
Quando é que adoptaremos a verdadeira essência da condição
de cidadãos e passaremos a participar realmente na condução do país assumindo a
responsabilidade pelas nossas escolhas, e só depois então os direitos que com
ela advêm?
Temos de deixar de reagir quando as coisas correm mal para
passar a agir atempadamente para que os problemas não surjam. Pois, como toda a
nossa história prova, não é solução mudar um mal por outro, só porque este é
mais recente!
E quanto a pagar impostos, podemos estar descansados, pois
existirão sempre e serão sempre a subir, independentemente de quem vá parar a
S. Bento, porque só “no céu não há IRS”; alegamente!
O que é que VOCÊ vai FAZER em relação a isso?
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